quinta-feira, 14 de julho de 2011

Análise - Virtua Tennis 4


Por muita convulsão que se gere em torno de algumas franquias detidas pela Sega, nomeadamente na forma como a marca tende a compatibilizá-las com a atual geração, outras há, porém, que permanecem irredutíveis e dotadas de um grau de solidez que parece escapar à erosão do tempo. Contados 12 anos desde a estreia da série Virtua Tennis, primeiro nas arcades e depois na Dreamcast, pouco antes de espalhar a magia do ténis virtual por outras plataformas, tributando assim as mais-valias de um imediatismo arcade pontuado pela acessibilidade e reconhecida sensação de conquista, voltar aos courts de ténis erigidos pela Sega, departamento AM3, ainda faz todo o sentido.

Doze anos que correspondem a quatro troféus, embora confundíveis entre si pelas melhores razões, sem omitir a respectiva regularização gráfica. À primeira a Sega descobriu o tónico ideal para não mais precisar de mexer no balanço do jogo. Em campo e dentro das premissas fundamentais do ténis, não foi preciso mais do que uma sequela para deixar a concorrência uns furos atrás. À medida que esta se debatia com problemas numa tentativa de simular a modalidade, à Sega era suficiente uma mera recapitulação da matéria dada para entregar um produto competente, equilibrado e irresistível, mesmo por quem não se sente muito confortável a assistir morosas partidas.

Louva-se, por isso, a atitude da Sega em não fazer desta uma edição anual. Nem teria realistas motivos para o fazer, na medida em que arriscaria um claro desinteresse pelo género e, pior, poderia modificar os princípios fundamentais de jogo, deitando fora anos preciosos de trabalho. Na verdade, Virtua Tennis 4 é um jogo que ferve em pouca água e se destila da concorrência, que entrega o mais entusiasmante do ténis, debruçando-se sobre o court recorrendo à melhor perspetiva, com pancadas e envios da bola deliciosamente endereçados com maior ou menor velocidade na direção desejada, tentando debelar o adversário (humano ou artificial) forçado a correr atrás do prejuízo. Torna-se dramático e um vício recuperar de uma partida praticamente esgotada.

Contudo, há também um preço a pagar por deixar intacto o conteúdo nervoso da série. É notório o conservadorismo da série, bem típico de algumas produções japonesas, que não gostam de inventar onde não faz sentido, nem adicionar efeitos cuja fanfarra pouco teria de relevante dentro do palco de jogo. Essa preocupação por manter intacta (retocada) a experiência tem sido a causa pela ausência de grandes novidades desde a segunda edição. Podemos dizer que este é um jogo muito próximo do primeiro, editado há doze anos, embora mais maduro e acrescido de opções, derivas que se posicionam em sintonia com as melhores práticas do jogo, muito por força dos mini-jogos, criados para lá das fronteiras da modalidade, mas notavelmente adaptados a uma série de princípios de jogo. Mesmo tendo o peso destes acrescentos, o magma de VT ainda é a disposição para os torneios arcade e o modo World Tour.

Quatro anos depois da estreia de VT (com a terceira edição) na nova geração, decorreu tempo suficiente para a entrada em cena de novos acessórios que reinterpretaram o esquema central de Wii remote (experimentado com registável sucesso em Virtua Tennis 2009 – Sumo Digital) e puseram em alternativa a possibilidade de movimentar personagens recorrendo aos movimentos corporais. Temos assim que versões PS3 e Xbox 360 de VT4 preveem adaptações ao Kinect e Move. Porém, o resultado final deste alcance está longe de replicar a melhor perspetiva. No que tange à versão PS3 – e que nos foi disponibilizada para crítica – desde logo há um desapontamento significativo, uma vez que a utilização do Move está condicionada a um modo específico de jogo apontado para alguns mini-jogos – Motion Play; constituído pelo Exhibition e por Play.


Além disso, a praticabilidade da ferramenta e da utilização do comando como se fosse uma raqueta, está longe de chegar a patamares que viabilizem a experiência. Desde logo o jogador controla apenas o "timming" para enviar a bola com uma pancada para o outro lado da rede, pelo que o movimento do jogador está a cargo da inteligência artificial. Depois, existe ainda uma transição permanente cada vez que a bola nos é endossada da perspetiva de jogo, nomeadamente da terceira para a primeira pessoa, o que acaba por causar alguma confusão e alguns problemas para a devida interpretação das jogadas.

Por tudo isto, não nos sentimos minimamente seduzidos pela opção do controlo por movimentos. Sente-se claramente que fora do domínio essencial da série, os seus autores ainda se sentem inconfortáveis e terão muitas horas de trabalho pela frente até sacudirem as dificuldades e implementarem com sucesso uma opção que é tão válida como deveria praticável, mas desde que consigam integrar com sucesso os predicados do jogo, sem avolumar os problemas de balanço e orientação das jogadas.

A melhor forma de interpretar e imprimir ritmo, consistência e absorver o brilhantismo de VT 4 é mesmo recorrendo ao tradicional comando. O acrescento do "stick" que tenham por aí para os "fighting games" será até a melhor opção, a que melhor se coaduna com o escopo arcade da série. O sistema de controlo permanece irredutível; fácil de adquirir, sente-se em pouco tempo um bom domínio (aparente) perante adversários pouco lestos, o que implica uma rampa de desenvolvimento até se ganhar o título arcade em níveis de dificuldade mais graúdos ou superar adversários reagrupados em rede. Mas também é isto que torna VT tão atraente e sem perder uma chama de interesse depois destes anos. Se perdemos um jogo foi porque o adversário colocou-se melhor em campo e foi capaz de condicionar o nosso jogo. O equilíbrio das regras- mesmo perante o computador – é uma das garantias de sucesso de VT.

Permanecendo fiel aos princípios de jogo que a série habitou, foram incluídos alguns desvios nas regras e correções que aprimoraram o embate. Felizmente reparou-se aquele "número" caricato que implicava uma ida e queda lateral para re-enviar uma bola distante com imediato levantamento, corrida e queda ao lado oposto para impedir o adversário de marcar o ponto. Sem esse espectacular grau de exigência, os tenistas ficam agora mais dependentes da colocação em campo e muito embora tentem ganhar bolas distantes, haverá situações em que nada mais se pode fazer. O posicionamento distante da rede ainda é a melhor forma para enviar a bola, com sucesso, para o outro lado da rede, com pancadas cada vez mais fortes. Tendo um bom posicionamento e pressionando o botão no momento certo será possível desferir autênticos "tiros" indefensáveis pelo nosso rival.

A inclusão dos "Super Shots" acrescenta algum dramatismo às partidas. Um fator que acrescenta emoção, mas sem causar desvios radicais na evolução do marcador. Trata-se de uma forte pancada que deixa sem reação e sem qualquer hipótese o adversário. Felizmente a utilização por cada jogo é reduzida, dado que só ao fim de mais algum tempo poderá voltar a ser utilizado. Inspirado, por exemplo, a partir dos golpes ultra de um Street Fighter, o momento da utilização é descrito dentro de uma breve cena cinematográfica onde observamos por completo o nosso atleta, frontalmente, a desferir a pancada, em absoluta câmara lenta, sendo perceptível todo um trabalho de animação facial e corporal quando a bola é recolhida, ressaltando na rede de nylon da raqueta do tenista.


Para lá do modo arcade que integra os quatro principais torneios mundiais, o jogador terá à disposição um renovado World Tour; o já conhecido modo carreira que permite criar do zero um tenista e levá-lo ao top mundial do ranking, desafiando tenistas por demais conhecidos.

Desta vez os autores optaram por incluir uma estrutura de progressão próxima dos jogos de cartão. O jogador será convidado a participar numa digressão asiática, antes de partir para outras localizações mundiais. Como se fosse um peão, avança por um conjunto de casas, correspondendo a cada uma finalidades distintas, com base nos bilhetes que tem em sua posse. Estes bilhetes garantem um avanço de duas, três ou quatro casas. Nalguns casos até pode comprar bilhetes de uma unidade de progressão, evitando assim algum tónico da sorte que tende a presidir esquema. De qualquer modo o jogador tem sempre uma margem de antecipação, vendo que possibilidade terá para cada cartão que aplique.

O objetivo continua a ser participar e vencer os principais torneios de cada região, subindo no ranking graças às estrelas acumuladas. Ao mesmo tempo é essencial desenvolver a personagem, pondo o atleta a recuperar da fadiga provocada pelos desafios e mini-jogos e também comprando novo equipamento como acessórios ou vestuário.

Os mini-jogos representam uma parte significativa da progressão do atleta, já que os bons resultados que atingir em cada um, dentro de um grau de dificuldade variável, deixá-lo-ão com atributos melhorados, podendo até desenvolver determinadas técnicas que poderão representar o seu estilo de jogo, devendo para isso obter as respetivas lições.

Estes pequenos desafios, à semelhança do jogo anterior, continuam bastante divertidos e envolvidos numa escala de dificuldade interessante e de diversificados objetivos. Por fim a exploração da componente para vários jogadores ligados em rede permite a formação de jogos singulares ou em pares, podendo ser convocado o atleta criado para o modo World Tour. Em termos visuais, VT4 continua estimulante, e delicado, ao ponto de relevar os pequenos detalhes que normalmente estão associados à modalidade, muito embora não surpreenda ou exiba uma espécie de ultra-realismo. Contudo, sempre se dirá que a sua mais valia é uma robustez gráfica, associada a uma sensação de controlo e animação dos tenistas verdadeiramente cativante. Apesar da falta de mais participantes da modalidade, continuam a marcar presença os atletas masculinos e femininos mais representativos dos últimos anos, assim como algumas lendas da modalidade.

Compatível com a utilização do 3D, VT4 teve uma primeira ronda de contacto com os novos sistemas de controlos por movimento, o Move e o Kinect. No caso do acessório da PS3 o resultado final fica muito aquém da expectativa, já que o jogo dá poucos sinais de resiliência na adaptação à tecnologia. Por contraponto permanece um clássico, garantindo sucesso, se disputado e aproveitado dentro dos esquemas tradicionais de controlo e, na verdade, os que ainda fazem mais sentido de aproveitamento para este produto, que pela primeira vez chega às consolas da nova geração sem a congénere versão arcade. VT4 não acrescenta grandes novidades para quem já percorreu os jogos anteriores, mas também não estamos perante uma série que se passeia anualmente. Estas aparições circulares e espaçadas relembram que na Sega ainda há trunfos que podem ser limados nalgumas arestas e que merecem permanecer intocados no seu núcleo sob pena de se desfazer uma fórmula que assegura o prazer do ténis virtual.

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